
São Paulo,
7 de maio de 2012.
Caros,
Meus pés estavam cimentados no meio fio. Calçava sapatilhas de um azul muito claro. Lembro-me que encarei as manchas de sujeira com uma certa felicidade, como se me certificasse que carregava a minha história. A tatuagem no pé direito assinalava-a: Para sempre meus amores sagrados e vivos no meu coração, em belo francês. Eu ainda olhava meus pés, as sapatilhas, a tatuagem e o meio-fio, enquanto aguardava o sinal abrir.
Vagarosamente levantei os olhos e dei de cara com o cara, a oito faixas de distância mais o canteiro central, precisamente na minha frente. Sim, porque era pedir demais para um destino insólito como o nosso que cada qual estivesse no ponto oposto da larga faixa de pedestres, camuflando-se entre a multidão de sábado na avenida das mais significativas e emblemáticas da cidade. Nem questiono os minutinhos a mais ou a menos que podiam ter deslocado esse encontro para outra dimensão. Existíamos e estávamos ali, eis tudo.
Minha irmã, que estava ao meu lado, ainda me perguntou o que devíamos fazer. Nada. Nada fizemos. A imagem daquele arcanjo, há dias bloqueado em todas as redes sociais -ah sim, o fim de um namoro de dois cabeças dura nos tempos modernos- me jogou para aquela mesa, daquele café, naquele abril onde vi aquele sorriso, que nem bonito achei, pela primeira vez. E fiquei alí, no café, na bagunça do apartamento de pinheiros, nos games de ps3, nos cigarros e copos de Jack Daniels, no show do U2, nos lanchinhos de jantar.
Ele me viu, tive certeza. E tive certeza também dos olhos com os quais ele não me olhara. Baixei a cabeça. Voltei aos meus pés, a minha história, a minha escolha. Prometi a mim mesma: vai passar. E como eu passo enquanto não passa? Os carros insistiam na avenida, o sinal nada de ficar amarelo e um cigarro voou àquela boca, no mesmo jeito de sempre. Ele tinha os fones de ouvido, eu tinha minha irmã. Justo. Daí bateu uma vontade descabida de pegá-lo pelo braço, no meio do cruzamento, e que se foda. Mas por mais poético e cara de heroína de filme que isso pareceria, essa beleza toda só existe no cinema da minha cabeça. Não restava mais nada.
O mundo foi desacelerando, parou um instante e, no tempo da troca de cores dos sinais de trânsito, pôs-se em movimento outra vez. Minha irmã e eu seguimos em frente, sem alterar qualquer trajetória, junto com toda a massa de gente. Ele não. Saiu, com segundos de atraso intencional, pela tangente. Nossos olhos nunca se cruzaram.
Minha irmã ainda disse: ele está com a jaqueta de couro que você deu de Natal. Eu respondi a mim mesma: eu estou com a mulher que ele me ensinou a ser.
Sua,
Stefania Apuzzo
Ps. Para ouvir: http://www.youtube.com/watch?v=3DcBBIOGwrI&feature=related Talvez todo ex odeie Alanis Morissette, mas não pude evitar. Não, não é You Oughta Know. E se há consolo, troco cada But I was sadly mistaken por And I was never wrong.