
Paris,
11 de janeiro de 2012.
Caros,
Trabalhei feito louca durante o mês de dezembro, inclusive fazendo extras, substituindo colegas, no Natal e também no meu aniversário. O ambiente, um stand de bagagens na Galeries Lafayette, templo das compras, do luxo, das grandes marcas, não é o meu preferido, mas poderia ser muito pior. Só o peso deste nome nos confirmaria o quão correto deve ser um contrato trabalhista ali. Afinal, tanto sangue derramado na Paris fins do século XVIII pra quê?

Paris,
01 de dezembro de 2012.
Caros,
Moro em Saint Ouen, cidade ao norte da grande Paris. Apesar de ter prefeitura e secretarias próprias, ela não passa de um quartier a meus olhos. Seu tamanho deve ser o mesmo que o da Vila Buarque, o menor bairro de São Paulo, onde morei. A 500 passos, o limite da cidade de Paris.

Paris,
24 de novembro de 2012.
Caros,
Desta vez, escrevo-lhes apenas a letra de uma música presente no repertório de um show que assistirei amanhã à noite em Montmartre.

Paris,
03 de novembro de 2012.
Caros,
Em todo lugar, a mesma pergunta:
- Tu t’appelles comment?
Sempre a resposta:
- Stefânia.
- Comment?
- Stefaniá. Ou Stef, plus simplement.
- Bien. E de onde você vem?
Pausa.

Paris,
21 de outubro de 2012.
Caros,
Naquele dia que não era quinta-feira à tarde, eu me encontrava, mais uma vez, na fila do escritório de estudantes estrangeiros. A mesma madame olhou minha papelada, aprovou o tal atestado de equivalência, me entregou um formulário em formato de praticamente uma cartolina a ser preenchido e devolvido com cópias simples de documentos devidamente listados (e talvez não exatamente esclarecidos) mais uma foto recente no rendez-vous que ela gentilmente marcara para a quinta-feira seguinte, 11h. Ou seja, fui até a universidade, nem completei dez minutos e já estava voltando para casa, sem inscrição.

Paris,
14 de outubro de 2012.
Caros,
Fico repetindo a frase “Paris permite” quando estou escolhendo o que vestir. Aliás, a primeira mudança que aconteceu em mim e que pude perceber de imediato é o modo como tenho me vestido. Não que eu tenha comprado um guarda-roupa novo, nem pensar. Mas é impressionante como a cidade te transforma e, então, as novas perspectivas criam combinações, linguagens, pratos e tantas outras coisas que não imaginávamos. É, tenho exercido a criatividade também na cozinha e até falado vagarosamente.

Paris,
3 de outubro de 2012.
Caros,
Super orgulhosa da minha organização e cuidado com minha pasta de documentos, eu me encontrava na fila de atendimento do escritório de estudantes estrangeiros a fim de fazer a matrícula na universidade. Na minha frente, uma japonesa aparentemente nervosa e, atrás, uma mulher véu, coberta até os pés. E quando falo em escritório de estudantes estrangeiros, estou traduzindo os dizeres impressos em papel sulfite colado no batente de uma porta minúscula que esconde um balcão altíssimo. Atrás desse balcão, muita papelada e gente rude. Eu quis estrangular a madame que maltratara a japonesa a minha frente. “Você consegue ler o que está escrito nessa ficha?” A japonesa talvez tentara responder mas, em dois tempo, foi atropelada pela segunda pergunta num tom ainda mais irônico: “O que está escrito aqui?” Por fim, a recém chegada aluna aparentemente nada resolveu e saiu um pouco tremendo, quase chorando.

Paris,
30 de setembro de 2012.
Caros,
Estou sentada na minha cadeira de couro vermelha, o notebook sobre a mesa em madeira muito antiga, grande e peculiar, de frente para a janela de uma altura um pouco acima de meus olhos. Do outro lado do vidro, mais afastadas, mais janelas e pequenas varandas cravadas em um prédio de clássicos seis andares de tijolos brancos. O silêncio, por vezes interrompido pelo som de crianças na rua, e o céu, ora azul muito profundo, ora cinza chumbo amarelado, nos guardam. Às minhas costas, toda Paris.
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